Seguimos com o primeiro capítulo do livro Era dos Extremos – O breve século XX (1914-1991), de Eric Hobsbawm (Companhia das Letras, 1996). Desta vez, trazemos o resumo das páginas 36 a 43. O capítulo inicial da obra é batizado de A Era da Guerra Total e inaugura a primeira das três partes da obra: A Era da Catástrofe. Boa leitura!

A única arma tecnológica que teve um efeito importante na 1ª G.M. foi o submarino. Como todos os suprimentos da Grã-Bretanha eram transportados por mar, parecia factível estrangular as ilhas britânicas mediante uma guerra submarina cada vez mais implacável contra os navios. A campanha chegou perto do êxito em 1917, antes que se descobrissem meios efetivos de contê-la, porém fez mais do que qualquer outra coisa para arrastar os EUA à guerra. Os britânicos, por sua vez, fizeram o melhor possível para bloquear os suprimentos da Alemanha, ou seja, matar de fome a economia e a população alemãs. Foram mais eficazes do que deveriam.

A mera superioridade do exército alemão enquanto força militar poderia ter-se mostrado decisiva se, a partir de 1917, os aliados não tivessem podido valer-se dos recursos praticamente ilimitados dos EUA. Na verdade, a Alemanha, mesmo entravada pela aliança com a Áustria, assegurou a vitória total no Leste, expulsando a Rússia da guerra para a revolução e para fora de grande parte de seus territórios europeus em 1917-18. Pouco depois de impor a paz punitiva de Brest-Litowsk (março de 1918), o exército alemão, agora livre para concentrar-se no Ocidente, na verdade rompeu a Frente Ocidental e avançou de novo sobre Paris. Graças à inundação de reforços e equipamentos americanos, os aliados se recuperaram. Era o último lance de uma Alemanha exausta, que se sabia perto da derrota. Assim que os aliados começaram a avançar, no verão de 1918, o fim era apenas uma questão de semanas. As Potências Centrais não só admitiram a derrota, mas desmoronaram. A revolução varreu o Sudeste e o Centro da Europa no outono de 1918, como varrera a Rússia em 1917. Nenhum governo ficou de pé entre as fronteiras da França e o mar do Japão. Mesmo os beligerantes do lado vitorioso ficaram abalados. Certamente, nenhum dos países derrotados escapou da revolução.

A maioria das guerras não revolucionárias e não ideológicas do passado não se travara sob a forma de lutas de morte ou que prosseguissem até a exaustão total. Certamente, não era a ideologia que dividia os beligerantes em 1914, exceto no fato de que, em ambos os lados, a guerra tinha de ser travada mediante a mobilização da opinião pública, isto é, alegando algum profundo desafio a valores nacionais aceitos, como o barbarismo russo contra a cultura alemã. A 1ª G. M. foi travada como um tudo ou nada. Ao contrário das anteriores, tipicamente travadas em torno de objetivos específicos e limitados, a disputa se dava por metas ilimitadas. Na Era dos Impérios, a política e a economia haviam se fundido. A rivalidade política internacional se modelava no crescimento e competição econômicos. O traço característico disso era, precisamente, não ter limites.

Para os dois principais oponentes, o céu tinha de ser o limite, pois a Alemanha queria uma política e posição marítima globais, como as que então ocupavam os britânicos, com o conseqüente relegamento de uma já declinante Grã-Bretanha a um status inferior. Era uma questão de ou uma ou outra. Para a França, então e depois, os objetivos em jogo eram menos globais, mas igualmente urgentes: compensar sua crescente e aparentemente inevitável inferioridade demográfica e econômica frente à Alemanha. Também aqui a questão era o futuro da França como grande potência. No papel, sem dúvida, era possível o acordo neste ou naquele ponto dos quase megalomaníacos “objetivos de guerra” que os dois lados formularam assim que o conflito estourou. Na prática, porém, só um objetivo contava: a vitória total, aquilo que, na Segunda Guerra Mundial, viria a chamar-se “rendição incondicional”.

Era um objetivo absurdo, que trazia em si a derrota e que arruinou vencedores e vencidos; que empurrou os derrotados para a revolução e os vencedores para a bancarrota e a exaustão física. Em 1940, a França foi atropelada com ridícula facilidade e rapidez por forças alemãs inferiores e aceitou sem hesitação a subordinação a Hitler porque o país havia sangrado até quase a morte em 1914-18. A Grã-Bretanha jamais voltou a ser a mesma após 1918, porque o país arruinara sua economia travando uma guerra que ia muito além de seus recursos. Além disso, a vitória total, ratificada por uma paz punitiva, imposta, arruinou as escassas possibilidades existentes de restaurar alguma coisa que guardasse mesmo fraca semelhança com uma Europa estável, liberal e burguesa.

O acordo de paz imposto pelas grandes potências vitoriosas sobreviventes (EUA, Grã-Bretanha, França, Itália) era dominado por cinco considerações. A mais imediata era o colapso de tantos regimes na Europa e o surgimento na Rússia de um regime bolchevique revolucionário alternativo, dedicado à subversão universal, um ímã para forças revolucionárias de todas as partes. Segundo, havia a necessidade de controlar a Alemanha. Esse era o maior interesse da França. Terceiro, o mapa da Europa tinha de ser redividido e retraçado, tanto para enfraquecer a Alemanha quanto para preencher os grandes espaços vazios deixados na Europa e no Oriente Médio pela derrota e colapso simultâneos dos impérios russo, habsburgo e otomano. Os muitos pretendentes à sucessão, pelo menos na Europa, eram vários movimentos nacionalistas que os vitoriosos tendiam a estimular, contanto que fossem antibolcheviques. O princípio básico de reordenação do mapa era criar Estados-nação étnico-linguísticos, segundo a crença, defendida pelo presidente Wilson, dos EUA, de que as nações tinham o “direito de autodeterminação”. A tentativa foi um desastre. O remapeamento do Oriente Médio se deu ao longo de linhas imperialistas (divisão entre Grã-Bretanha, França e EUA), com exceção da Palestina, onde o governo britânico, ansioso por apoio internacional judeu durante a guerra, tinha, de maneira incauta e ambígua, prometido estabelecer “um lar nacional” para os judeus. Essa seria outra relíquia problemática da 1ª Guerra Mundial.

O quarto conjunto de considerações eram as políticas internas dentro dos países vitoriosos e o atrito entre eles. A conseqüência mais importante dessa politicagem interna foi que o Congresso americano se recusou a assinar um acordo de paz escrito, em grande parte, por ou para seu presidente. Em conseqüência, os EUA se retiraram dele. Por fim, as potências vitoriosas buscaram desesperadamente o tipo de paz que tornasse impossível outra guerra como a que acabara de devastar o mundo. Fracassaram de forma espetacular.

Tornar o mundo seguro contra o bolchevismo e remapear a Europa eram metas que se sobrepunham, pois a maneira mais imediata de tratar com a Rússia revolucionária era isolá-la atrás de um “cinturão de quarentena” (cordon sanitaire) de Estados anticomunistas. Como os territórios desses Estados haviam sido, em grande parte ou inteiramente, secionados de ex-terras russas, sua hostilidade para com Moscou podia ser dada como certa. Eram eles: a Finlândia, uma região autônoma que Lênin deixara separar-se; a Polônia, devolvida à condição de Estado após 120 anos; uma Romênia com o tamanho duplicado por cessões das partes húngara e austríaca do império habsburgo e da ex-russa Berassábia; e Estônia, Letônia e Lituânia, três novas repúblicas bálticas. A tentativa de ir adiante com esse cinturão de isolamento no Cáucaso fracassou porque, em 1921, a Rússia revolucionária chegou a um acordo com a Turquia, que não tinha simpatia pelos imperialistas franceses e britânicos. Em suma, no Leste, os aliados aceitaram as fronteiras impostas pela Alemanha à Rússia revolucionária, na medida em que não eram tornadas inoperantes por forças que eles não pudessem controlar.

A Áustria e a Hungria foram reduzidas a retaguardas alemã e magiar. A Sérvia foi expandida para uma grande e nova Iugoslávia, pela fusão com a (ex-austríaca) Eslovênia, a (ex-húngara) Croácia e o antes independente Montenegro, pequeno reino tribal de pastores e assaltantes. Também foi formada uma nova Tchecoslováquia, juntando-se o miolo industrial do império habsburgo (as terras tchecas) às áreas de camponeses eslovacos e rutênios antes pertencentes à Hungria. A Romênia foi ampliada para um conglomerado multinacional, enquanto a Polônia e a Itália também se beneficiavam. Não havia precedente histórico ou lógica nas combinações iugoslavas e tchecoslovacas, meras construções de uma ideologia nacionalista que acreditava na força da etnicidade e na indesejabilidade de Estados-nação pequenos demais. Como era de se esperar, esses casamentos sob mira de espingarda não se mostraram muito firmes.

Impôs-se a Alemanha uma paz punitiva, justificada pelo argumento de que o Estado era o único responsável pela guerra e todas as suas conseqüências (a cláusula da “culpa de guerra”), para mantê-la permanentemente enfraquecida. Isso foi conseguido não tanto por perdas territoriais, embora a Alsácia-Lorena voltasse à França e uma substancial região no Leste à Polônia (o “Corredor Polonês); na realidade, essa paz punitiva foi assegurada privando-se a Alemanha de uma marinha e uma força aérea efetivas; limitando-se seu exército a 100 mil homens; impondo-se “reparações” teoricamente infinitas; adotando-se a ocupação militar de parte da Alemanha Ocidental; e, não menos, privando-se a Alemanha de todas as suas antigas colônias no ultramar. Elas foram distribuídas entre os britânicos, franceses e japoneses. Contudo, em deferência á crescente impopularidade do imperialismo, não mais foram chamadas de colônias, e sim de “mandatos” para assegurar o progresso de povos atrasados, entregues humanitariamente às potências imperiais, que nem sonhariam em explorá-los para nenhum outro propósito. Com exceção das cláusulas territoriais, nada restava do Tratado de Versalhes em meados da década de 1930.

Quanto ao mecanismo para impedir outra guerra mundial, a alternativa, exortada a obstinados politiqueiros europeus pelo presidente Wilson, era estabelecer uma “Liga das Nações”, que solucionasse pacífica e democraticamente os problemas antes que se descontrolassem, de preferência em negociação pública, pois a guerra também tornara suspeitos, como “diplomacia secreta”, os habituais e insensíveis processos de negociação internacional. Foi em grande parte uma reação contra os tratados secretos acertados entre os aliados durante a guerra, nos quais dividiram a Europa do pós-guerra e o Oriente Médio com uma surpreendente falta de atenção pelos desejos, ou mesmo interesses, dos habitantes daquelas regiões. Os bolcheviques, descobrindo esses documentos sensíveis nos arquivos czaristas, haviam-nos prontamente publicado para o mundo ler, e, portanto, exigia-se um exercício de redução de danos. A Liga das Nações foi, de fato, estabelecida como parte do acordo de paz e revelou-se um quase total fracasso, a não ser como uma instituição para coleta de estatísticas. A recusa dos EUA a juntar-se à Liga das Nações privou-a de qualquer significado real.

O acordo de Versalhes estava condenado desde o início; não podia ser a base de uma paz estável. Para começar, os EUA se retiraram quase imediatamente. Em um mundo não mais eurocentrado e eurodeterminado, nenhum acordo não endossado pelo que era agora uma potência mundial podia se sustentar. Além disso, duas grandes potências européias e mundiais estavam temporariamente eliminadas do jogo internacional: a Alemanha e a Rússia soviética. Assim que uma ou as duas reentrassem em cena, um acordo de paz baseado apenas na Grã-Bretanha e na França (a Itália também continuava insatisfeita), não poderia durar. Qualquer pequena chance que tivesse a paz foi torpedeada pela recusa das potências vitoriosas a reintegrar as vencidas.

Talvez a guerra seguinte pudesse ter sido evitada ou, pelo menos, adiada, caso houvesse ocorrido a restauração da economia como um sistema global de prósperos crescimento e expansão. Em meados da década de 20, no entanto, a economia mundial mergulhou na maior e mais dramática crise que conhecera desde a Revolução Industrial. E isso levou ao poder, na Alemanha e no Japão, as forças políticas do militarismo e da extrema direita, empenhadas num rompimento deliberado com o status quo. Daí em diante, uma nova guerra mundial era rotineiramente prevista.