No quarto capítulo de Formação Econômica do Brasil (Companhia Editora Nacional, 1987), sob o título de Desarticulação do Sistema, o economista Celso Furtado explica, em três páginas (16 a 18), que o domínio espanhol modificou o quadro político-econômico dentro do qual nasceu a empresa agrícola colonial brasileira. Leia abaixo o resumo:

O quadro político-econômico dentro do qual nasceu e progrediu de forma surpreendente a empresa agrícola em que se assentou a colonização do Brasil foi profundamente modificado pelo domínio espanhol de Portugal. A guerra que contra a Espanha promoveram os holandeses, durante esse período, repercutiu profundamente na colônia portuguesa da América. A luta pelo controle do açúcar torna-se uma das razões de ser desta guerra, que teve como episódio a ocupação pelos batavos, durante um quarto de século, de grande parte da região produtora de açúcar no Brasil.

As terras compreendidas atualmente pela Holanda, a Bélgica e parte do norte da França eram conhecidas, no começo dos tempos modernos, pela designação geral de Nederlanden, isto é, Países-Baixos. Quando as sete províncias setentrionais – entre as quais se destacavam a Holanda e a Zelândia – conquistaram sua independência, no fim do século XVI, as demais passaram a chamar-se Países-Baixos espanhóis e, a partir do século XVIII, austríacos. A parte independente chamou-se, então, Províncias Unidas, prevalecendo subseqüentemente o nome de Holanda. A independência das Províncias Unidas data, oficialmente, de 1579 (União de Utrëcht), mas a guerra com a Espanha continuou pelos 30 anos seguintes, até a trégua de 12 anos firmada em 1609. Dessa forma, os flamengos das Províncias Unidas, que haviam desenvolvido enormemente o seu comércio com Portugal, quando estavam submetidos à Espanha, foram obrigados a abandona-lo quando adquiriram a independência, pois no ano seguinte a Espanha ocupava Portugal.

As conseqüências da ruptura do sistema cooperativo anterior serão, entretanto, muito mais duradouras que a ocupação militar. Durante sua permanência no Brasil, os holandeses, que, no início do século XVII, controlavam praticamente todo o comércio dos países europeus realizado por mar, adquiriram o conhecimento de todos os aspectos técnicos e organizacionais da indústria açucareira. Esses conhecimentos vão constituir a base para a implantação e desenvolvimento de uma indústria concorrente, de grande escala, na região do Caribe. A partir desse momento, estaria perdido o monopólio, que nos três quartos de século anteriores se assentara na identidade de interesse entre os produtores portugueses e os grupos financeiros holandeses que controlavam o comércio europeu.

No terceiro quartel do século XVII, os preços do açúcar estarão reduzidos à metade e persistirão nesse nível relativamente baixo durante todo o século seguinte. O volume das exportações médias anuais da segunda metade do século XVII dificilmente alcança 50% dos pontos mais altos atingidos em torno de 1650. Tudo indica que a renda real gerada pela produção açucareira estava reduzida a ¼ do que havia sido em sua melhor época. A depreciação, em relação ao ouro, da moeda portuguesa foi praticamente das mesmas proporções, o que indica claramente a enorme importância para a balança de pagamentos de Portugal que tinha o açúcar brasileiro. A depreciação da moeda portuguesa, uma conseqüência natural da redução substancial no valor real das exportações, minorava os prejuízos dos comerciantes que tinham capitais empatados nos negócio do açúcar, permitindo que esses negócios continuassem operando. Se outros fatores (a descoberta do ouro meio século antes, por exemplo) houvessem impedido a depreciação, muito mais profunda teria sido a decadência das regiões açucareiras na segunda metade do século XVII.