No terceiro capítulo de Formação Econômica do Brasil (Companhia Editora Nacional, 1987), Celso Furtado discorre sobre as Razões do monopólio (páginas 13 a 15). Leia o resumo abaixo:

Um dos fatores do êxito da empresa colonizadora agrícola portuguesa foi a decadência da economia espanhola, a qual se deveu, principalmente, à descoberta precoce dos metais preciosos. Os magníficos resultados financeiros da colonização agrícola do Brasil abriram perspectivas atraentes à utilização econômica das novas terras. Os espanhóis, no entanto, continuaram concentrados em sua tarefa de extrair metais preciosos. A política espanhola estava orientada no sentido de transformar as colônias em sistemas econômicos o quanto possível auto-suficientes e produtores de um excedente líquido – na forma de metais preciosos – que se transferia periodicamente para a Metrópole. Esse afluxo de metais preciosos alcançou enormes proporções relativas e provocou transformações estruturais na economia espanhola. O poder econômico do estado cresceu desmesuradamente, e o enorme aumento no fluxo de renda gerado pelos gastos públicos – ou por gastos privados subsidiados pelo governo – provocou uma crônica inflação que se traduziu em persistente déficit na balança comercial.

Os metais preciosos que a Espanha recebia da América sob a forma de transferências unilaterais provocavam um afluxo de importação de efeitos negativos sobre a produção interna e altamente estimulante para as demais economias européias. Como se não bastasse, a possibilidade de viver direta ou indiretamente de subsídios do Estado fez crescer o número de pessoas economicamente inativas, reduzindo a importância relativa na sociedade espanhola e na orientação da política estatal dos grupos dirigentes ligados às atividades produtivas.

A decadência econômica da Espanha prejudicou enormemente suas colônias americanas. Fora da exploração mineira, nenhuma outra empresa econômica de envergadura chegou a ser encetada. As exportações agrícolas de toda a imensa região em nenhum momento alcançaram importância significativa, em três séculos de vida do grande império espanhol. Não fosse o retrocesso da economia espanhola e a exportação de manufaturas de produção metropolitana para as colônias teria necessariamente evoluído, dando lugar a vínculos de natureza bem mais complexa que a simples transferência de um excedente de produção sob a forma de metais preciosos. O consumo de manufaturas européias pelas densas populações da meseta mexicana e do altiplano andino teria criado a necessidade de uma contrapartida de exportações de produtos locais, seja para consumo em Espanha, seja para reexportação. Um intercâmbio desse tipo provocaria necessariamente transformações nas estruturas arcaicas das economias indígenas e possibilitaria maior penetração de capitais e técnica europeus. Houvesse a colonização espanhola evoluído nesse sentido e muito maiores teriam sido as dificuldades enfrentadas pela empresa portuguesa para vencer.

Tudo indica que os espanhóis podiam haver dominado o mercado de produtos tropicais, particularmente o do açúcar, desde o século XVI. Não existindo por trás um fator político, como ocorreu em Portugal, o desenvolvimento de linhas de exportação de produtos agrícolas americanos teria que ser provocado por grupos econômicos poderosos. Seria de esperar que os produtores de manufaturas liderassem esse movimento, não fosse a decadência em que entrou esse setor na etapa das grandes importações de metais preciosos e de concentração da renda em mãos do Estado espanhol. Vale lembrar que a exportação de açúcar pelas colônias americanas era proibida, para evitar concorrência, no mercado interno da Espanha, à pequena produção que se obtinha na Andaluzia.