thumb_04_edited1.jpgcelso-furtado_edited.jpgCaros amigos, os cinco parágrafos abaixo resumem o segundo capítulo do livro Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado (Companhia Editora Nacional, 1987). Neste capítulo, o autor explica os Fatores do êxito da empresa agrícola (páginas 9 a 12). Boa leitura!

Um conjunto de fatores particularmente favoráveis tornou possível o êxito dessa primeira grande empresa colonial agrícola européia. Os portugueses haviam já iniciado há algumas dezenas de anos a produção, em escala relativamente grande, nas ilhas do Atlântico, de uma das especiarias mais apreciadas no mercado europeu: o açúcar. Sem o relativo avanço técnico de Portugal nesse setor, o êxito da empresa brasileira teria sido mais difícil ou mais remoto. A significação maior da experiência das ilhas do Atlântico, no entanto, foi possivelmente no campo comercial. Uma das conseqüências principais da entrada da produção portuguesa no mercado fora a ruptura do monopólio, que mantinham os venezianos, do acesso às fontes de produção.

Desde cedo, a produção portuguesa passa a ser encaminhada em proporção considerável para Flandres. A partir da metade do século XVI, a produção portuguesa de açúcar passa a ser mais e mais uma empresa em comum com os flamengos, inicialmente representados pelos interesses de Antuérpia e em seguida pelos de Amsterdã. Os flamengos recolhiam o produto em Lisboa, refinavam-no e faziam a distribuição por toda a Europa, particularmente o Báltico, a França e a Inglaterra. A contribuição dos flamengos – particularmente dos holandeses – para a grande expansão do mercado do açúcar, na segunda metade do século XVI, constituiu um fator fundamental do êxito da colonização do Brasil. Os holandeses eram nessa época o único povo que dispunha de suficiente organização comercial para criar um mercado de grandes dimensões para um produto praticamente novo, como era o açúcar. Levando-se em conta, por um lado, as grandes dificuldades encontradas inicialmente para colocar no mercado a pequena produção da Ilha da Madeira, e, por outro, a estupenda expansão subseqüente do mercado, que absorveu com preços firmes a grande produção brasileira, fica evidente a importância da etapa comercial para o êxito da empresa açucareira.

E não somente com sua experiência comercial contribuíram os holandeses. Parte substancial dos capitais requeridos pela empresa açucareira viera dos Países-Baixos. Tudo indica que capitais flamengos participaram no financiamento das instalações produtivas no Brasil, bem como no da importação da mão-de-obra escrava. Na realidade, o negócio do açúcar era mais dos holandeses do que dos portugueses.

Não bastavam a experiência técnica dos portugueses na fase produtiva e a capacidade comercial e o poder financeiro dos holandeses para tornar viável a empresa colonizadora agrícola das terras do Brasil. Existia o problema da mão-de-obra. Uma circunstância veio facilitar enormemente a solução do problema: por essa época, os portugueses eram já senhores de um completo conhecimento do mercado africano de escravos. Mediante recursos suficientes, seria possível ampliar esse negócio e organizar a transferência para a nova colônia agrícola da mão-de-obra barata, sem a qual ela seria economicamente inviável. No entanto, ali onde os núcleos coloniais não encontravam uma base firme para expandir-se, a mão-de-obra indígena desempenhou sempre um papel fundamental.

Não há dúvida que por trás de tudo estavam o desejo e o empenho do governo português de conservar a parte que lhe cabia das terras da América, das quais sempre se esperava que um dia sairia o ouro em grande escala. Contudo, esse desejo só poderia transforma-se em política atuante se encontrasse algo concreto em que se apoiar. Caso a defesa das novas terras houvesse permanecido por muito tempo como uma carga financeira para o pequeno reino, seria de esperar que tendesse a relaxar-se. O êxito da grande empresa agrícola do século XVI – única na época –constituiu, portanto, a razão de ser da continuidade da presença dos portugueses em uma grande extensão das terras americanas. No século seguinte, quando se modifica a relação de forças na Europa com o predomínio das nações excluídas do Tratado de Tordesilhas, Portugal já havia avançado enormemente na ocupação efetiva da parte que lhe coubera.

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