brasil_colonial_edited.jpgimg3.jpgEste post traz o resumo do primeiro capítulo do livro Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado (Companhia Editora Nacional, 1987). O capítulo de abertura se chama: Da expansão comercial à empresa agrícola (páginas 5 a 8). Leia abaixo:

celso2.jpgA ocupação econômica das terras americanas constitui um episódio da expansão comercial da Europa. De início, a descoberta das terras americanas pareceu ser um episódio secundário. E na verdade o foi para os portugueses durante todo um meio-século. Aos espanhóis revertem em sua totalidade os primeiros frutos, que são também os mais fáceis de colher. O ouro acumulado pelas velhas civilizações da meseta mexicana e do altiplano andino é a razão de ser da América, como objetivo dos europeus, em sua primeira etapa de existência histórica. A legenda das riquezas inapreciáveis por descobrir corre a Europa e suscita um enorme interesse pelas novas terras. Esse interesse contrapõe Espanha e Portugal, “donos” dessas terras, às demais nações européias. A partir desse momento, a ocupação da América deixa de ser um problema exclusivamente comercial: intervêm nele importantes fatores políticos. Não fora a miragem desses tesouros, de que, nos primeiros dois séculos da história americana, somente os espanhóis desfrutaram, e muito provavelmente a exploração e ocupação do continente teriam progredido muito mais lentamente.               

O início da ocupação econômica do território brasileiro é, em boa medida, uma conseqüência da pressão política exercida sobre Portugal e Espanha pelas demais nações européias. A miragem do ouro que existia no interior das terras do Brasil – à qual não era estranha a pressão crescente dos franceses – pesou seguramente na decisão tomada de realizar um esforço relativamente grande para conservar as terras americanas. Os traços de maior relevo do primeiro século da história americana estão ligados a essas lutas em torno de terras de nenhuma ou escassa utilização econômica.

Espanha e Portugal se crêem com direito à totalidade das novas terras, direito esse que é contestado pelas nações européias em mais rápida expansão comercial na época: Holanda, França e Inglaterra. A Espanha recolhe de imediato pingues frutos que lhe permitem financiar a defesa de seu rico quinhão. Coube a Portugal a tarefa de encontrar uma forma de utilização econômica das terras americanas que não fosse a fácil extração de metais preciosos. Somente assim seria possível cobrir os gastos de defesa dessas terras. Das medidas políticas que então foram tomadas, resultou o início da exploração agrícola das terras brasileiras, acontecimento de enorme importância na história americana. De simples empresa espoliativa e extrativa – idêntica á que na mesma época estava sendo empreendida na costa da África e nas Índias Orientais – a América passa a constituir parte integrante da economia reprodutiva européia, cuja técnica e capitais nela se aplicam para criar de forma permanente um fluxo de bens destinados ao mercado europeu. 

É fato universalmente conhecido que aos portugueses coube a primazia nesse empreendimento. Se seus esforços não tivessem sido coroados de êxito, a defesa das terras do Brasil ter-se-ia transformado em ônus demasiado grande e – excluída a hipótese de antecipação na descoberta do ouro – dificilmente Portugal teria perdurado como grande potência colonial na América.