O quinto capítulo de Formação Econômica do Brasil (Companhia Editora Nacional, 1987), de Celso Furtado, tem o título de As colônias de povoamento do Hemisfério Norte. Segue abaixo o resumo das cinco páginas (19 a 23):

O principal acontecimento da história americana no século XVII foi, para o Brasil, o surgimento de uma poderosa economia concorrente no mercado de produtos tropicais. O advento dessa economia decorreu, em boa medida, do debilitamento da potência militar espanhola na primeira metade do século XVII, debilitamento esse observado de perto pelas três potências cujo poder crescia na mesma época: Holanda, França e Inglaterra. A idéia de apoderar-se da rica presa, que era o quinhão espanhol da América, estava sempre presente nesses países. E se não chegou a concretizar-se em maior escala foi graças às rivalidades crescentes entre França e Inglaterra. Estes dois países trataram de apoderar-se das estratégicas ilhas do Caribe para nelas instalar colônias de povoamento com objetivos militares. Franceses e ingleses se empenham, assim, no início do século XVII, em concentrar nas Antilhas importantes núcleos de população européia, na expectativa de um assalto em larga escala aos ricos domínios da grande potência enferma desse século. Em razão de seus objetivos políticos, essa colonização deveria basear-se no sistema de pequena propriedade.

As Antilhas inglesas se povoaram com maior rapidez que as francesas e com menos assistência financeira do governo, provavelmente devido à maior facilidade de recrutamento de colonos que apresentavam as ilhas britânicas. O século XVII foi uma etapa de grandes transformações sociais e de profunda intranqüilidade política e religiosa nessas ilhas. Nos três quartos de século que antecederam o Toleration Act de 1689, a intolerância política e religiosa deu origem a importantes deslocamentos de população dentro das ilhas e para o exterior. Esses movimentos de população estão intimamente ligados ao início da expansão colonizadora inglesa da primeira metade do século XVII, mas de nenhuma forma explicam esta última.

Ao contrário do que ocorrera com a Espanha e Portugal, que se haviam visto afligidos por uma permanente escassez de mão-de-obra quando iniciaram a ocupação da América, a Inglaterra do século XVII apresentava um considerável excedente da população, graças às profundas modificações de sua agricultura iniciadas no século anterior. Essa população sobrante, que abandonava os campos na medida em que o velho sistema de agricultura coletiva ia sendo eliminado, e em que as terras agrícolas eram desviadas para a criação de gado lanígero, vivia em condições suficientemente precárias para submeter-se a um regime de servidão por tempo limitado, com o fim de acumular um pequeno patrimônio.

O início dessa colonização de povoamento no século XVII abre uma nova etapa na história da América. Em seus primeiros tempos, essas colônias acarretam vultosos prejuízos para as companhias que as organizam. Particularmente grandes são os prejuízos dados pelas colônias que se instalam na América do Norte. A busca de artigos capazes de criar mercados em expansão constitui a preocupação dos novos núcleos coloniais. Era necessário encontrar artigos que pudessem ser produzidos em pequenas propriedades, condição sem a qual não perduraria o recrutamento de mão-de-obra européia. Em tais condições, os núcleos situados na região Norte da América Setentrional encontraram sérias dificuldades para criar uma base econômica estável. O que se podia produzir na Nova Inglaterra era exatamente aquilo que se produzia na Europa, onde os salários, na época, estavam determinados por um nível de subsistência extremamente baixo. Explica-se assim o lento desenvolvimento inicial das colônias do Norte do continente. Do ponto de vista das companhias que financiaram os gastos iniciais de traslado e instalação, a colonização dessa parte da América constituiu um efetivo fracasso.

As condições climáticas das Antilhas permitiam a produção de um certo número de artigos – como o algodão, o café e, principalmente, o fumo – com promissoras perspectivas nos mercados da Europa. A produção desses artigos era compatível com o regime de pequena propriedade agrícola, e permitia que as companhias colonizadoras realizassem lucros substanciais, ao mesmo tempo em que os governos das potências expansionistas – França e Inglaterra – viam crescer as suas milícias.

About these ads