era_do_extremos.jpg Eu decidi abrir o blog com o livro Era dos Extremos – O breve século XX (1914-1991), de Eric Hobsbawm (Companhia das Letras, 1996). Abaixo, segue o resumo das sete primeiras páginas do capítulo inicial (da 29 a 35), batizado de A Era da Guerra Total. Este capítulo inaugura a primeira das três partes da obra: A Era da Catástrofe. Vamos ao que interessa:

Em 1914, não havia grande guerra fazia um século. Houvera apenas uma guerra em que mais de duas grandes potências haviam combatido, a Guerra da Criméia (1854-1856), entre a Rússia, de um lado, e a Grã-Bretanha e a França, do outro. Entre 1815 e 1914, nenhuma grande potência combateu outra fora de sua região imediata, embora expedições agressivas de potências imperiais ou candidatas a imperiais contra inimigos mais fracos de ultramar fossem, claro, comuns. A maioria dessas expedições resultava em lutas espetacularmente unilaterais, como as guerras dos EUA contra o México (1846-1848) e a Espanha (1898) e as várias campanhas para ampliar os impérios coloniais britânico e francês, embora de vez em quando a escória reagisse: os franceses tiveram de se retirar do México na década de 1860 e os italianos da Etiópia, em 1896.wwi-soldiers.jpg

Entre 1871 e 1914, não houvera na Europa guerra alguma em que exércitos de grandes potências cruzassem alguma fronteira hostil, embora no Extremo Oriente o Japão tivesse combatido, e vencido, a Rússia (1904-1905), apressando com isso a Revolução Russa.Os grandes participantes do jogo internacional da época eram os EUA, o Japão e as seis “grandes potências” européias: a Grã-Bretanha, a França, a Rússia, a Áustria-Hungria, a Prússia (após 1871, ampliada para Alemanha) e, depois de unificada, a Itália. A 1ª Guerra Mundial envolveu todos os Estados europeus, com exceção da Espanha, dos Países Baixos, dos três países da Escandinávia e da Suíça. Quanto à 2ª Guerra Mundial, esta envolveu praticamente todos os Estados independentes do mundo, embora as repúblicas da América Latina só tenham participado de forma mais nominal. Com exceção da futura República da Irlanda e de Suécia, Suíça, Portugal, Turquia e Espanha, na Europa, e talvez do Afeganistão, fora do continente europeu, todo o globo foi beligerante ou ocupado, ou as duas coisas juntas.ww1-poster.jpg

Das 74 guerras internacionais travadas entre 1816 e 1965, classificadas por especialistas americanos pelo número de vítimas, as quatro primeiras ocorreram no século XX: as duas guerras mundiais, a guerra do Japão contra a China (1937-1939), e a Guerra da Coréia. Cada uma delas matou mais de um milhão de pessoas em combate. A maior guerra internacional documentada do século XIX pós-napoleônico, entre Prússia-Alemanha e França, em 1870-71, matou talvez 150 mil pessoas, uma ordem de magnitude mais ou menos comparável às mortes na Guerra do Chaco, de 1932 a 1935, entre Bolívia e Paraguai. Em suma, o ano de 1914 inaugurou a era do massacre.tank.jpg

Na 1ª G.M., o plano alemão era liquidar rapidamente a França no Ocidente e depois partir com igual rapidez para liquidar a Rússia no Oriente. A Alemanha planejava uma campanha-relâmpago, o que seria, na 2ª G.M, chamado de blitzkrieg. O plano quase deu certo. O exército alemão avançou sobre a França, atravessando a Bélgica, neutra, e só foi detida algumas dezenas de quilômetros a Leste de Paris, junto ao rio Marne, cinco ou seis semanas depois de declarada a guerra (em 1940, o plano viria a dar certo). Em seguida, recuou um pouco, e os dois lados improvisaram linhas paralelas de trincheiras e fortificações defensivas, que pouco depois se estendiam, sem interrupção, da costa do Canal, em Flandres, até a fronteira da Suíça. Nos três anos e meio que se seguiram não houve mudança significativa de posição.wwi-trenches3.jpg

Essa era a “Frente Ocidental”, que se tornou uma máquina de massacre sem precedentes na história da guerra. A tentativa alemã de romper a barreira em Verdun, em 1916 (fevereiro-julho), foi uma batalha de 2 milhões de homens, com 1 milhão de baixas. Fracassou. A ofensiva britânica no Somme, destinada a forçar os alemães a suspender a ofensiva de Verdun, custou a Grã-Bretanha 420 mil mortos, 60 mil no 1º dia de ataque. Os franceses perderam 20% de seus homens em idade militar. Os britânicos perderam uma geração: meio milhão de homens com menos de 30 anos. Os EUA, por sua vez, perderam entre 2,5 e 3 vezes mais homens na 2ª G.M do que na 1ª G.M., onde atuaram um ano e meio e só na Frente Ocidental. Os horrores da guerra na Frente Ocidental dariam origem a uma classe de ex-soldados responsável pela formação das primeiras fileiras da ultradireita do pós-guerra. Adolf Hitler era apenas um desses homens para quem ter sido um frontsoldat era a experiência formativa da vida.

wwii-planes.jpg A primeira batalha naval da 1ª G. M. foi travada em 1914, ao largo das ilhas Falkland, e as campanhas decisivas, entre submarinos alemães e comboios aliados, deram-se sobre e sob os mares do Atlântico Norte e Médio. A guerra naval foi global. Ambos os lados usaram os novos e ainda frágeis aeroplanos na 1ª G. M. A guerra aérea atingiria a maioridade na 2ª G.M., notadamente como um meio de aterrorizar civis. Não se pode deixar de citar também o pioneirismo britânico no uso dos veículos blindados de esteira. De fato, os dois lados tentaram vencer pela tecnologia. Os alemães levaram o gás venenoso ao campo de batalha, ocasionando o único caso autêntico de repulsa humanitária governamental a um meio de fazer a guerra, a Convenção de Genebra de 1925, pelo qual o mundo se comprometia a não usar guerra química. De fato, ela não foi usada por nenhum dos lados na 2ª G. M., embora os sentimentos humanitários não impedissem que os italianos lançassem gás sobre os povos coloniais. O acentuado declínio dos valores da civilização após a 2ª G. M. acabou trazendo de volta o gás venenoso durante a Guerra Irã-Iraque, nos anos 80.

hitler-paris.jpg Após a guerra, tornou-se bastante evidente para os políticos que os banhos de sangue de 1914-1918 não seriam mais tolerados pelos eleitores. A estratégia pós-1918 da Grã-Bretanha e da França, tal como a estratégia dos EUA no pós-Vietnã, baseava-se nessa crença. A curto prazo, isso ajudou os alemães a ganhar a 2ª G.M. no Ocidente em 1940. A longo prazo, os governos democráticos não resistiram à tentação de salvar as vidas de seus cidadãos, tratando as dos países inimigos como totalmente nagasakibomb.jpgdescartáveis. O lançamento da bomba atômica sobre Hiroxima e Nagasaki, em 1945, não foi justificado como indispensável para a vitória, então absolutamente certa, mas como um meio de salvar vidas de soldados americanos. É possível que a idéia de que isso viesse a impedir a URSS de reivindicar uma participação preponderante na derrota do Japão tampouco estivesse ausente do pensamento do governo americano.

Enquanto a Frente Ocidental permanecia num impasse sangrento (e romper este impasse era crucial para os dois lados, ainda mais que a guerra naval também estava empatada), a Frente Oriental continuava em movimento. Os alemães pulverizaram uma canhestra força de invasão russa na batalha de Tannenberg, no primeiro mês da guerra, e depois, com a ajuda por vezes efetiva dos austríacos, empurraram a Rússia para fora da Polônia. Apesar de ocasionais contra-ofensivas russas, ficou claro que as Potências Centrais tinham o domínio e que a Rússia travava uma ação defensiva de retaguarda contra o avanço alemão. Nos Bálcãs, apesar do desempenho militar irregular do pétreo império habsburgo, o controle era das Potências Centrais. Os beligerantes locais, Sérvia e Romênia, sofreram de longe as maiores perdas militares. Os aliados, apesar de ocuparem a Grécia, não fizeram progresso até o colapso das wwi-trenches.jpgPotências Centrais, após o verão de 1918. O plano da Itália de abrir outra frente contra a Áustria-Hungria nos Alpes falhou. Enquanto a França, a Grã-Bretanha e a Alemanha sangravam até a morte na Frente Ocidental, a Rússia se via cada vez mais desestabilizada pela guerra que estava perdendo a olhos vistos e o império austro-húngaro cambaleava para o desmoronamento.

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